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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Opinião: Avaliação das instituições tem peso no mercado de trabalho

Exame do Ministério da Educação pode prejudicar carreiras.
Alunos devem cobrar qualidade das instituições de ensino.
Foto: Arte/G1A necessidade de se ter uma formação acadêmica para conquistar um emprego tem aumentado a oferta de vagas nas universidades. Cada vez mais temos notícias de cursos e faculdades que estão sendo abertos. Para se ter uma idéia, entre os anos de 2002 e 2007, o número de cursos no país aumentou de 14.399 para 23.488, cerca de 63% em cinco anos. O curso campeão nesse quesito foi o de pedagogia (85%).

As faculdades encontraram um bom filão. E, é claro, as que mais se difundira são as de baixo custo, como é o caso de pedagogia, que em contrapartida, tem piorado seu desempenho – em quatro anos, o número de cursos com conceitos 1 e 2 saltou de 172 para 292, segundo o Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade), de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo.

Os profissionais que saem dessas instituições de qualidade duvidosa estão indo para o mercado de trabalho, atendendo a nós e nossos filhos. Muitas vezes, se iludem de que possuem uma formação profissional. Lastimam a dificuldade de arrumar um emprego e sua má sorte: nem um curso superior garante uma colocação.

Ora, não vamos confundir ter um diploma, canudo como dizem popularmente, com formação profissional. Claro que uma pessoa que fez uma faculdade sem muita qualidade pode, por meio de seu esforço próprio, superar pontos fracos de uma formação acadêmica. Há aqueles que se restringem a fazer uma boa faculdade e não se aprimoram. A universidade é apenas o ponto de partida para aquele que quer ser um profissional de qualidade.

Se duas pessoas forem disputar uma vaga de emprego, provavelmente seus selecionadores observarão suas formações e onde as fizeram. Aquela que estudou em lugares reconhecidos pela sua qualidade, provavelmente estará alguns pontos na frente, o que não quer dizer que seja melhor que o concorrente. Diria que é um bom cartão de visita, pois geralmente os profissionais vindos dessas instituições têm uma qualidade profissional diferenciada. Claro que outras etapas de um processo seletivo vão dizer qual o profissional mais capacitado.

Que o digam os estudantes de um curso de direito do estado de Pernambuco. Eles tiveram problemas para conseguir estágios após a publicação do Índice Geral de Cursos (IGC) de 2007, que avalia os cursos de graduação e pós graduação do país. Com isso, entraram com uma ação impedindo a divulgação do IGC de 2008.

Com certeza essas publicações deixam à mostra e prejudicam a carreira profissional de muitos. Quem vai querer alguém de uma faculdade que teve um conceito baixo pela avaliação do Ministério da Educação (MEC)? E os alunos que estão apenas em busca de um caminho para seguir na vida se prejudicam.

A própria população deveria ser mais exigente com as faculdades que escolhem e fazem. Diante desses índices de qualificação, é preciso cobrar delas uma mudança visando qualidade. Não à toa algumas instituições tem conceitos 4 e 5 enquanto outras são classificadas como ruins.

A qualidade da instituição universitária vai sim, ao menos a princípio, ter um peso na conquista de um lugar no mercado de trabalho. E a população não tem tempo e nem dinheiro para perder com coisas ruins.


(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

Professores têm estratégias para detectar plágio ou fraude em monografia

São usados sites de busca e programa específico para detectar cópia.
Fraudadora que faz monografias admite ter só o ensino médio.

O comércio de monografias, que é quando o universitário compra o trabalho de conclusão de curso, é ilegal por ser um crime de violação de direito autoral cometido tanto por quem vende como por quem compra.

Para descobrir se o trabalho entregue pelo universitário foi mesmo feito por ele, os professores usam algumas técnicas. Orientador de 15 monografias por semestre, Isaac Luna usa sites de busca e um programa específico para detectar textos copiados, principalmente, da internet. “É uma questão de honra descobrir, apesar de dar mais trabalho”, diz.

Se a fraude ou o plágio não foram descobertos durante a elaboração do trabalho, a prova de fogo é na hora da apresentação da monografia. Aqui, diante da banca, o orientador e dois professores têm que estar preparados para descobrir se o estudante comprou, copiou ou realmente elaborou a monografia.
A banca é rigorosa, faz perguntas estratégicas e, com uma câmera, grava as apresentações.

Monografia para exportação


Em uma empresa, a fraudadora diz que o golpe está sendo até exportado. “Eu já acompanho um doutorado há quase quatro anos de uma menina em Barcelona”, diz. Segundo ela, o texto é feito primeiro em português para depois ser traduzido para o espanhol.


Ela admite ter só o ensino médio. “Eu só tenho o segundo grau, nunca entrei na faculdade. E basta eu olhar um trabalho que eu descubro que é plágio. Não precisa ser professor [para saber].

Famílias encaixotadas

Como apartamentos de 50 metros quadrados (ou menos) estão mudando a forma de morar e viver da classe média urbana brasileira
Stefano Martini
65 METROS QUADRADOS
Luciana, Carrilho e o pequeno Rafael na sala do apartamento em Jacarepaguá, no Rio. A família gasta mais porque não aguenta ficar em casa
Há dois anos, o supervisor de segurança Márcio Carrilho, de 37 anos, e a mulher, Luciana Pereira, de 34, realizaram o sonho da casa própria. De um imóvel alugado, mudaram-se para um apartamento num condomínio fechado em Jacarepaguá, bairro de classe média na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Já no estande de vendas, viram que o imóvel era pequeno: cerca de 65 metros quadrados. Mas, ao conseguir um financiamento, acreditaram que o investimento e a segurança compensariam o aperto. Hoje, família maior com a chegada de Rafael, de 1 ano, eles ainda penam para se adaptar à falta de espaço. “A primeira vez em que entramos no apartamento percebemos o drama”, diz Luciana. Alguns móveis da sala foram doados. A porta da geladeira abre em cima do fogão. No quarto do bebê só coube o berço e um pequeno armário. A poltrona de amamentação com que Luciana sonhava, nem pensar. Rafael está aprendendo a andar no corredor do prédio. Os brinquedos e tralhas infantis ficam embaixo da cama do casal. As compras mensais viraram semanais: não há despensa que acomode consumo maior. No fim de semana, saem mais e gastam mais que antes. “Fico com claustrofobia se não sair”, diz Luciana.

Márcio e Luciana são um exemplo da chamada “classe média apertada”, segundo os institutos de pesquisa Mediator e Contexto Brasil. Em julho deste ano, a pedido de representantes do mercado imobiliário carioca, eles fizeram uma análise do pós- -venda de imóveis com menos de 70 metros quadrados, em condomínios fechados do Rio. O resultado é um estudo dessas famílias que, ao buscar um teto próprio e mais segurança, se deparam com uma vida de adaptações, “jeitinhos” – e muito estresse. Em O novo espaço familiar: o dia a dia nos apês compactos, os entrevistados – homens e mulheres de 22 a 55 anos, moradores de bairros como Barra da Tijuca e Jacarepaguá – enumeraram consequências da nova situação, desde procedimentos práticos até aspectos emocionais: em espaços menores, o convívio familiar se torna mais conflituoso.

“Uma das mulheres pesquisadas, mãe de três filhos, inventou uma rotina em que só ia para a cama às 2 da manhã, para poder ter seu momento a sós, ler ou ver televisão em paz”, afirma Andréa Martins, diretora da Mediator. Nos relatos da pesquisa, a grande maioria dos membros da família disse que as brigas haviam aumentado depois da mudança – em especial nos grupos em que há adolescentes. A psicóloga Adriana Wagner, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora de Família em cena: tramas, dramas e transformações, diz que o espaço menor de convivência aumenta a necessidade de negociação das famílias. “Qualquer grupo precisa da delimitação de fronteiras nítidas, sejam físicas, sejam emocionais: o que é do casal, o que é das crianças, o que é só do pai ou da mãe”, diz. Ela afirma, porém, que, embora possa agravar os conflitos, o imóvel apertado não é o causador original do desequilíbrio familiar. “Esse existe num lar de qualquer tamanho, quando não se respeita a fronteira do outro.” Adriana acredita que o fato de não haver muito espaço pode, inclusive, contribuir para um aprendizado de respeito com o que é do outro. “Se não houver diálogo, todos saem perdendo. A saída é conversar.”

O militar Leonardo Estevão da Silva, de 32 anos, passou do apartamento espaçoso em que morava com a mãe para um espaço de 68 metros quadrados em Irajá, num condomínio de classe média. Ele mora com a mulher, Ana Paula, e a filha, Ana Luísa, de 2 anos, e descreve seu lar: “A cozinha é um corredor, a sala é apertada, o banheiro é minúsculo”. Alguns sonhos de consumo precisaram ser adiados, como a televisão de LCD. Não há distância suficiente da parede até o sofá. Mesmo a TV comum eles veem de lado. O pior é não poder trocar de roupa no banheiro. Com a falta de espaço, é preciso ir de toalha para o quarto. “Se houver gente de fora na casa, tem de dar uma corrida”, diz Ana Paula. Mas “gente de fora” é o que menos há nos apartamentos dessas famílias. Um dos resultados do aperto apontado na pesquisa foi a perda da sociabilidade. Nada de reuniões de famílias ou amigos. “Os adolescentes reclamam que não podem convidar os amigos. Mas, na verdade, não há como colocar mais gente num espaço que já é todo esquematizado, dividido em horários”, diz Maria Nazareth Barcellos, do Instituto Contexto Brasil. “A mãe usa a sala na hora da novela enquanto o filho espera para poder jogar videogame. Nos quartos não há como pôr televisão.”

A criatividade em criar outras formas de organização chamou a atenção dos pesquisadores. Muitas coisas ficam embaixo da cama ou em tetos falsos. Os porta-malas dos carros também viram depósitos de álbuns de fotografias, instrumentos musicais, brinquedos maiores e até edredons e roupas de inverno, quando chega o verão. Atrás das vagas, nos estacionamentos, é comum haver bicicletas ou pranchas de surfe. Alguns condomínios já fizeram armários coletivos para os moradores.

Uma das pesquisadas inventou uma rotina em que só dormia às 2 da manhã, para poder estar a sós

Pai de um menino de 7 anos, o comerciante Walter Santos, de 37, mudou-se do aluguel da Zona Norte para a Barra da Tijuca em busca de “uma nova vida”. O condomínio fechado, perto da praia, com área de lazer, era o que sua família sempre quis. No dia da mudança, depois de o caminhão entregar tudo que tinham, simplesmente não conseguiram entrar no apartamento. Resultado: passaram uma semana na casa da sogra pensando o que fariam com boa parte do que tinham. Foram obrigados a se livrar de móveis, enfeites e eletroeletrônicos. “Aos poucos vamos nos adaptando, mas passo os fins de semana na casa dos outros ou passeando. Em casa, meu filho fica mais agitado que de costume. Parece um bichinho enjaulado”, diz Santos. O pior mesmo, para ele, é a falta de privacidade. “Todas as noites, por volta de 11 e meia, tenho de cheirar o jantar de meu vizinho, que chega tarde. E muitas vezes saio de manhã com os ruídos do casal ao lado fazendo sexo.”

Essas famílias não são exceções. Ao contrário. Esse tipo de imóvel compacto é a grande febre da classe média nas cidades grandes. Além do Rio, onde foi feita a pesquisa, também em São Paulo há oferta cada vez maior dos apartamentos compactos. De acordo com Odair Senra, presidente do Sindicato das Construtoras de São Paulo, dois motivos contribuem para isso: o pouco espaço disponível para construção, que levou à racionalização, e a demanda da casa própria pela nova classe média. “Para baratear o imóvel e tornar o sonho possível, jogaram na mão do arquiteto a missão de reduzir os tamanhos”, diz. Multiplicam-se os apartamentos de 70 metros quadrados. Mas há também os menores, de 40 metros e 50 metros quadrados. Segundo um estudo do Núcleo de Estudos sobre Habitação, da Universidade de São Paulo (USP), na década de 70 a média de um apartamento de dois quartos era de 85 metros quadrados. Em 2000, já era de 65.

Quando se mudaram, recém-casados, para o apartamento de 49 metros quadrados em que vivem hoje, em São Bernardo do Campo, o técnico em informática Michel Capelli, de 35 anos, e a mulher, a veterinária Gabriela, de 26, tiveram de se desfazer de boa parte do que tinham e mobiliar a casa com poucos e pequenos móveis, além de eletrodomésticos compactos. Antes do casamento, ela morava com os pais numa ampla casa de três quartos, com jardim e churrasqueira no quintal, no ABC paulista. Ele vivia com a família em um sobrado espaçoso de dois andares na Zona Leste de São Paulo. “No dia em que nos mudamos, peguei a mangueira para lavar as janelas”, conta Gabriela, revelando o costume típico de moradores de casas. “Em dois minutos o interfone tocou com uma pessoa reclamando que a água estava inundando a casa dela.”

Rogério Cassimiro
49 METROS QUADRADOS
Capelli, Gabriela e a cadela Charlene no apartamento de São Bernardo. Os vizinhos parecem perto demais

O corintiano Michel ainda se espanta com a proximidade dos vizinhos. “Às vezes, eu abro a janela e dou de cara com o chileno palmeirense do bloco ao lado, deitado na cama de cueca, com o laptop no colo”, afirma. “Eu sei até o horário em que o cidadão do apartamento de cima vai assoar o nariz”, diz Gabriela. O casal só não conseguiu se livrar de um costume: cachorro em casa. Charlene, uma vira-lata de 2 anos e 13 quilos, é a terceira moradora do cubículo. “Era provisório, porque não tínhamos onde deixá-la, mas acabou ficando”, afirma Gabriela. Prova de que há jeito para tudo.

O presidente da Imobiliária Patrimóvel, Rubem Vasconcelo, diz que a multiplicação dos apartamentos compactos é um caminho sem volta. E, com o crescimento da classe média, será uma tendência ainda mais forte. “O brasileiro é um povo ligado à propriedade, à família. Todos querem um lar para chamar de seu.” Ele diz que o tamanho dos imóveis está diminuindo. De 70 e 60 metros quadrados, antes, agora há demanda por 40 a 50 metros quadrados. “O mercado não inventa, ele se adapta ao que o consumidor quer”, afirma. “E o consumidor quer o que cabe no bolso.”

A classe média apertada

Perdas e ganhos das famílias em apartamentos de até 70 metros2

O que procuram
x Imóvel próprio
x Bairros mais valorizados
x Condomínios com segurança

O que encontram
x Cômodos onde não cabe o que vem da casa anterior
x Espaços compartilhados na marra, causando conflitos
x Falta de privacidade em relação aos vizinhos

Como se adaptam
x Doam parte dos móveis
x Passam a fazer compras semanais em vez de mensais
x Debaixo da cama vira “armário”; mesa vira “escritório” etc.
x Carro vira depósito de “tralhas”
x Quarto de empregada vira cômodo reversível, despensa ou depósito
x Organização de uso de espaços: horários de banho, videogame, televisão

Prejuízos
x Despesas com compra de móveis e eletrodomésticos menores
x Socialização: não podem receber amigos ou familiares como antes
x Gastam mais com restaurantes e passeios. Ficar em casa é estressante

Fonte: Pesquisa Instituto Mediator/Instituto Contexto Brasil

Farah Jorge Farah, o ex-cirurgião plástico que esquartejou a ex-amante em 2003, revela – em entrevista exclusiva a ÉPOCA – como vive e o que pensa

Rogério Cassimiro
SOLIDÃO
Farah deixa a universidade em que estuda, em São Paulo. Ao sair da cadeia, em 2007, ele começou a estudar Direito. Hoje cursa também filosofia

De cabeça baixa, calva à mostra, ele vasculha uma imensa bolsa preta de alças compridas. Estende a mão direita, olha nos meus olhos e faz um desafio:
– Me acha nesta foto.

Uma porção de alunos do Brasílio Machado, um colégio público da Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, sorriem em preto e branco. Meninas sentadas à direita, meninos à esquerda. Era 1966. Aponto uns quatro ou cinco adolescentes e não acerto.

– Então eu não sei, Farah.
– Vou dar uma dica, estou na primeira fila.
– É este?
– Não.
– Este?
– Também não.
– Então só sobrou o que está de óculos, mas não pode ser. Você me disse que, naquela época, ainda não usava óculos.
– Deve ser reflexo. Aí eu tinha 17 anos. Só descobri que era míope depois, quando fui tirar a carteira de motorista.

Cabelos lisos caindo pela testa, estilo tigelinha, Farah Jorge Farah era um dos garotos mais belos da classe. Ao guardar na bolsa o retrato daquele menino de semblante tranquilo e feliz, ele ressurge em 2009: um sexagenário solitário, emocionalmente instável, que vive atormentado. No ano passado, Farah foi condenado a 13 anos de prisão por ter matado Maria do Carmo Alves, sua ex-amante, e por ter ocultado o cadáver. Passou quatro anos e quatro meses na cadeia. Obteve, na Justiça, o direito de recorrer em liberdade. Enquanto espera a sentença definitiva, diz que tenta “juntar os cacos”. “Não sou o que as pessoas pensam, minha índole não é ruim”, afirma. “O que fiz foi de maneira irrefletida, impensada. Houve luta. O estresse foi tão grande que minha cabeça balança até hoje, ainda estou confuso. Talvez, quando Jesus voltar, Ele me faça entender o que aconteceu.”

Farah me recebeu diversas vezes nas últimas semanas. Foram 11 horas de entrevistas feitas pessoalmente, mais de duas horas por telefone e uma extensa troca de e-mails. Encontrei um homem de aparência frágil, de boné, com a espinha levemente curvada pelo uso de uma bengala, fala mansa, que se considera vítima da incompreensão social. “O povo quer a minha punição ad aeternum (eternamente)? Quem não comete pecados? Sou um ser humano, seres humanos agem de forma intempestiva”, diz. Farah se esforça para mostrar-se inofensivo, apegado à família e versado em religião e filosofia. Olhares e palavras – ora em tons frágeis, ora irônicos – sugerem que, muitas vezes, ele diz bem menos do que gostaria. Na primeira conversa, logo me perguntou: “Já leu a respeito do julgamento de Sócrates?”.

reprodução, Flávio Grieger/Folha Imagem e Nilton Fukuda/Diário SP

Maria do Carmo chegou à clínica de Farah, na Zona Norte de São Paulo, por volta de 18 horas. Era 24 de janeiro de 2003, uma sexta-feira chuvosa

1. Na versão da polícia e do Ministério Público, Farah atraiu Maria do Carmo à clínica para matá-la. Aplicou um sedativo no dorso da mão direita e começou a esquartejá-la viva. Foi ao prédio onde morava, a 50 metros, guardar o carro, um Daewoo Espero. Voltou a pé e continuou a retalhá-la. Colocou o cadáver numa banheira com produtos químicos

2. Segundo Farah, Maria do Carmo o perseguia havia cinco anos. No dia do crime, foi à clínica sem ser convidada. Discutiram e, diz Farah, ela tentou esfaqueá-lo. Ele teria se defendido com a bengala e a empurrado. Maria do Carmo teria batido a cabeça na parede e Farah lhe tomou a faca. A partir dali, ele afirma ter sofrido amnésia temporária e ter acordado na manhã seguinte, diante de sacos de lixo com o cadáver dissecado

3. Na manhã de sábado, os pais de Farah foram à clínica. Ele pôs os sacos com o cadáver esquartejado no porta-malas do automóvel do casal, um Golf vermelho, e partiu com os dois. À noite, foi ao prédio onde morava e transferiu os sacos com o corpo para o seu carro, o Daewoo Espero

4. Farah caminhou até a clínica carregando frascos de água sanitária numa sacola. Na volta, pegou um produto no condomínio e foi à garagem limpar o Daewoo. Depois, subiu a seu apartamento, no 26o andar, e permaneceu lá

5. No domingo, Farah entrou e saiu do condomínio diversas vezes. Parentes chegaram. À noite, ele foi levado a uma clínica psiquiátrica. Seus advogados comunicaram o crime à polícia e informaram o local onde estava o cadáver

6. Horas depois, policiais abriram o porta-malas do Daewoo, no subsolo do edifício. O cadáver de Maria do Carmo foi localizado, esquartejado, em cinco sacos de lixo. Órgãos como o coração e o fígado nunca foram encontrados